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Sengoku, O Buda: O Fardo da Justiça Reinante e a Prisão de Ouro do Governo Mundial

Em todo o panteão de lendas que pavimentaram as crônicas de One Piece, poucas figuras são tão paradoxais, majestosas e tragicamente aprisionadas por suas próprias convicções quanto Sengoku. Conhecido pelas alcunhas de "O…

Retrato autoral de Sengoku
Ilustração de Sengoku

Introdução

Em todo o panteão de lendas que pavimentaram as crônicas de One Piece, poucas figuras são tão paradoxais, majestosas e tragicamente aprisionadas por suas próprias convicções quanto Sengoku. Conhecido pelas alcunhas de "O General Estrategista" e "Sengoku, O Buda", ele serviu como o Almirante de Frota da Marinha durante o clímax da Era de Ouro dos Piratas. Contudo, sob a aura resplandecente de sua Hito Hito no Mi, Modelo: Daibutsu (Buda Gigante) e por trás do imponente uniforme cravejado de medalhas, repousa a alma de um homem que foi lentamente esmagado pelo peso colossal do próprio sistema que jurou proteger. A jornada de Sengoku não é a de um herói infalível ou de um vilão ardiloso, mas a de um arquiteto moral confinado em uma máquina brutal, sendo forçado a manchar suas mãos de ouro com o sangue de inocentes em prol da estabilidade mundial.

Sengoku personifica a "Justiça Reinante" (君臨する正義 - Kunrin Suru Seigi). Ao contrário da "Justiça Absoluta" de Akainu, que busca o extermínio de qualquer ameaça a ferro e fogo, ou da "Justiça Preguiçosa" de Aokiji, que age pela flexibilidade do contexto, a Justiça de Sengoku é estrutural. Ele acredita que o mundo é um caos latente, um oceano em ebulição que só é contido por uma represa chamada Governo Mundial. Para Sengoku, o colapso dessa represa não significaria apenas a ascensão de piratas, mas a completa aniquilação da paz para os civis. Para manter essa represa intacta, ele se transformou na personificação de uma divindade passiva: monumental, inflexível e, por necessidade, conivente com os horrores inenarráveis de seus mestres, os Gorosei.

Capítulo 1: A Hito Hito no Mi e a Divindade Cativa – O Paradoxo de Ouro

O poder de uma Akuma no Mi costuma ser o reflexo poético da alma ou do fardo de seu usuário na obra de Eiichiro Oda. A Hito Hito no Mi, Modelo: Daibutsu, permite que Sengoku se transforme em um Buda dourado colossal. O Buda, na teologia budista do mundo real, é o ser iluminado, desapegado das dores terrenas e portador da compaixão universal (Karuna). No entanto, a aplicação dessa fruta por Sengoku é tudo menos compassiva; é bélica, autoritária e devastadora. A luz dourada que emana de seu corpo não cura, ela aniquila por meio de ondas de choque devastadoras.

Este é o primeiro grande paradoxo do Almirante de Frota. Sengoku possui a forma de uma divindade de sabedoria e paz, mas opera como a principal ferramenta de opressão violenta de um império corrupto. A cor dourada da estátua é deslumbrante, mas não é maleável; o ouro é denso, pesado, e no caso de Sengoku, representa a prisão brilhante na qual ele se colocou. Ao aceitar o posto de Almirante de Frota, Sengoku deixou de ser um homem livre. Ele perdeu o direito à moralidade individual e passou a ser o escudo vivo de Mary Geoise.

A forma de Buda não é, portanto, um símbolo de sua iluminação espiritual, mas uma armadura colossal projetada para suportar a culpa. O Buda sorri, mas Sengoku, em seu interior, carrega o pavor e o asco das ordens que precisa transmitir. Ele absorve os pecados do Governo Mundial — os encobrimentos de massacres, a censura do Século Perdido, a manutenção do comércio de escravos pelos Dragões Celestiais — e os transplanta para seus ombros dourados, convencendo a si mesmo de que sem a força da Marinha, o terror seria incomensuravelmente pior. Sengoku aceitou ser o monstro burocrático de ouro para evitar que o mundo sangrasse em vermelho.

Capítulo 2: O Triunvirato das Lendas – A Amizade com Garp e o Espelho de Roger

A narrativa da vida de Sengoku não pode ser contada sem cruzar diretamente com as trajetórias de Monkey D. Garp, o Herói da Marinha, e Gol D. Roger, o Rei dos Piratas. Os três representam o vértice e o núcleo de uma era que não existe mais. Entre eles, havia um profundo e irônico respeito que transcendia alianças políticas ou alinhamentos morais.

O contraste entre Sengoku e Garp é fascinante e trágico. Ambos ingressaram na Marinha com ideais de justiça e a mesma paixão ardente por proteger o povo. No entanto, enquanto Garp recusou sistematicamente a promoção a Almirante para não se tornar um cão direto dos Tenryuubito (preservando sua liberdade de agir e pensar), Sengoku aceitou a promoção. Garp representava a alma indisciplinada, barulhenta e pura da Marinha; Sengoku representava o cérebro tático, a disciplina hierárquica e o sacrifício burocrático.

Quando Garp se sentava no escritório do Almirante de Frota comendo biscoitos sem permissão e rindo das catástrofes, Sengoku sempre gritava enlouquecido. Contudo, sob essa casca de aborrecimento, havia uma proteção mútua. Garp era o alívio cômico e moral de Sengoku. Ele era o lembrete de que a Marinha ainda tinha guerreiros puramente movidos por virtude. Por outro lado, Sengoku era o escudo institucional de Garp. Quantas vezes a insubordinação crônica, as ligações com criminosos (como seu filho Dragon) ou o comportamento negligente de Garp teriam levado a sua execução ou expulsão, se Sengoku não estivesse lá para engolir o sapo e manipular as engrenagens burocráticas a favor de seu melhor amigo? Sengoku carregou o fardo do comando para que Garp pudesse manter o luxo de ser o "Herói".

Da mesma forma, a relação de Sengoku com Gol D. Roger foi pautada em um profundo respeito, mas desprovida do romantismo que Garp exibia. Enquanto Garp e Roger lutavam quase como irmãos desajustados, Sengoku via Roger como a antítese de sua "Justiça Reinante". Roger era a tempestade indomável que rasgava as fundações da ordem mundial. Mas quando Roger se entregou e as portas de Impel Down se fecharam, Shiki o Leão Dourado invadiu Marineford enfurecido. O confronto entre Sengoku e Garp contra Shiki foi um dos momentos em que Sengoku sentiu, simultaneamente, o peso da perda e a responsabilidade de honrar o testamento daquela era. A morte de Roger e de Barba Branca mais tarde selaram as cortinas sobre o tempo em que Sengoku se reconhecia; um tempo em que os monstros tinham honra.

Capítulo 3: O Fantasma de Ohara e o Sangue Oculto nas Mãos da Justiça

Se quisermos encontrar o exato ponto de ruptura onde a "Justiça Reinante" de Sengoku perdeu qualquer ilusão de nobreza, devemos olhar para as cinzas de Ohara. Como Almirante de Frota, Sengoku foi o cérebro que organizou e coordenou o Buster Call que obliterou a Árvore do Conhecimento e a ilha de acadêmicos. Este é um capítulo manchado de escuridão que o assombra permanentemente.

Para Sengoku, os arqueólogos de Ohara eram terroristas intelectuais. Ao tentar decifrar os Poneglyphs e reavivar o conhecimento do Século Perdido e das Armas Ancestrais, eles ameaçavam soltar sobre o mundo uma calamidade sem precedentes. Sengoku, fiel ao seu dogma de preservação do frágil status quo, ordenou o genocídio como um mal necessário. No entanto, o extremismo absoluto e nojento exibido pelo então Vice-Almirante Sakazuki (Akainu) — que afundou o navio de refugiados civis — mostrou a Sengoku as consequências práticas de seu comando.

A tragédia de Ohara consolidou a natureza do trabalho de Sengoku: ele era o limpador das impurezas do mundo, mas ao usar a sujeira do genocídio para apagar o fogo da rebelião intelectual, ele perdeu a própria bússola moral. Ele adotou Donquixote Rosinante (Corazón) como um filho substituto, talvez na tentativa psicológica de provar a si mesmo que ainda podia nutrir esperança e cuidar da inocência. A traição e morte de Rosinante nas mãos de Doflamingo serviram apenas para endurecer ainda mais a carapaça de gelo ao redor do coração de Sengoku, trancafiando-o definitivamente na torre sombria da burocracia governamental. A Marinha exigia um ídolo dourado de justiça inabalável; não havia mais espaço para os prantos de um homem.

Capítulo 4: A Guerra dos Melhores – O Cume da Ruína e o Colapso da Represa

O Arco de Marineford é o palco magistral e trágico da carreira de Sengoku, a consagração e, paradoxalmente, a completa falência do seu sistema. Ao orquestrar a execução de Portgas D. Ace, Sengoku desejava cortar a linhagem amaldiçoada do Rei dos Piratas e, com um só golpe, atrair e aniquilar o Imperador Barba Branca, reafirmando perante o globo a hegemonia da "Justiça Reinante". Era a obra-prima tática de sua vida.

Entudo, a Guerra dos Melhores se revelou um inferno que expôs todas as hipocrisias da justiça militar. Sengoku passou a guerra não apenas lidando com os ataques tsunâmicos de Barba Branca, mas gerenciando as emoções incontroláveis de seus próprios homens. Garp chorando no patíbulo ao lado de Ace representava a falha humana fundamental da estrutura que Sengoku construiu: as regras rígidas colapsaram diante do amor. Quando Garp cede ao ver Luffy passar, Sengoku não o pune ou mata. Ele apenas entende. A complexidade do rosto de Sengoku no patíbulo, enquanto Garp se deixa golpear, é a dor silenciosa de um homem vendo as correntes da lealdade estrangularem a honra de seu irmão de armas.

O momento definitivo da frustração de Sengoku não é contra Barba Branca, mas contra Barba Negra. Quando Teach usurpa os poderes da Gura Gura no Mi e ri sobre o cadáver do pai de Ace, declarando que afundará Marineford, Sengoku assume sua forma de Buda Dourado e ataca. Suas ondas de choque são impulsionadas não apenas por dever, mas por uma profunda ira existencial contra a arrogância juvenil e a falta de respeito perante a sacralidade da paz. "Vocês, garotos insolentes... não subestimem a paz e a estabilidade deste mar!", grita o Buda, com sangue escorrendo pelos lábios e pelos olhos.

No final da guerra, o grito angustiado de Koby, clamando pelo fim do massacre inútil, seguido pela intervenção diplomática imponente de Shanks, é o sinal vermelho que força Sengoku a agir. Quando o Almirante de Frota aceita o cessar-fogo proposto por Shanks ("Eu assumo a responsabilidade... tratem dos feridos"), é uma admissão avassaladora de derrota moral. A guerra havia terminado, Barba Branca estava morto, e a Marinha havia "vencido". Mas Sengoku olhou para a destruição de sua amada fortaleza, para o mar manchado de vermelho, e percebeu que a justiça não reinou sobre Marineford naquele dia. Apenas a morte.

Capítulo 5: A Pós-Guerra e a Redenção Capilar – A Liberdade Pela Frustração

O epílogo da vida militar ativa de Sengoku é uma das transformações de personagem mais poéticas da obra. Após Marineford, Sengoku convoca uma reunião com o Comandante em Chefe Kong e exige, de forma resignada e cansada, a sua renúncia do cargo de Almirante de Frota. A gota d'água não foi apenas o trauma da guerra, mas a ordem repugnante dos Gorosei de abafar e ocultar as fugas massivas do Nível 6 de Impel Down para não manchar a reputação do Governo Mundial. O limite da cumplicidade havia sido alcançado. Sengoku, exausto de ser o guardião de segredos sujos que sacrificavam cidadãos inocentes em prol das "aparências", abdicou do trono de ouro.

O salto temporal (timeskip) revela um Sengoku fisicamente e psicologicamente transformado. Seus cabelos curtos pretos e o rígido cavanhaque deram lugar a vastos cabelos e barbas inteiramente brancos. Ele não veste mais o formalismo sufocante, mas trajes floridos, soltos e descompromissados, acompanhado de sua inseparável cabra (um símbolo sutil de pastoreio e calmaria, embora seja uma brincadeira de Oda). Mas o mais impactante é o seu comportamento: o homem ranzinza, que gritava a cada desastre e suava sangue sob pressão, agora ri com a boca cheia de bolachas enquanto o mundo de Akainu pega fogo.

Sengoku finalmente alcançou a iluminação irônica. Ele se libertou da "Justiça Reinante". A brancura de seus cabelos simboliza a velhice, sim, mas acima de tudo o escoamento de todo o estresse avassalador, da culpa e da responsabilidade. Ele repassou o fardo colossal para Akainu, e agora observa o tabuleiro não como o peão principal dos Dragões Celestiais, mas como um observador externo com uma sabedoria residual, livre das algemas do Governo Mundial.

Quando conversa com Trafalgar Law sobre Donquixote Rosinante em Dressrosa, Sengoku demonstra uma vulnerabilidade humana comovente, consolando o jovem pirata e afirmando que o amor de Corazón justifica a vida que ele leva. Não é o Almirante de Frota falando, é o avô lamentando a perda do filho adotivo. O Buda dourado se aposentou, permitindo que a fragilidade serena do homem tomasse o controle.

Conclusão: O Legado de Ouro e Sombra

Sengoku permanecerá na crônica do universo de Eiichiro Oda como a engrenagem mais consciente de uma máquina imperdoável. Ele conhecia cada gota de sangue nas suas mãos e aceitava-as conscientemente, convencido de que sua desgraça espiritual era o preço necessário para a ordem mundial. A genialidade de sua escrita está em nos fazer compreender — e não necessariamente justificar — que sem homens como Sengoku para ancorar o meio termo entre a anarquia dos piratas e o genocídio absoluto de Akainu, o mundo teria desabado muito antes.

O Buda suportou as trevas para que a fachada de luz e civilidade existisse. Hoje, ele vaga pelos QGs da Marinha, distribuindo conselhos enigmáticos, devorando lanches ao lado de seu amigo Garp e sorrindo. Não é o sorriso imposto de um ídolo divino; é o sorriso liberto, genuíno e trágico de um homem que finalmente cumpriu sua sentença. A verdadeira liberdade de Sengoku não veio da divindade, mas da abdicação. O mar da nova era já não lhe pertence, mas ele descansará em suas margens, esperando para ver se os jovens alvoreceres da justiça poderão, enfim, lavar o sangue e trazer uma paz que não dependa do medo e da tirania.

Capítulo 6: A Batalha de Edd War, a Invasão de Shiki e o Fim das Lendas Antigas

Uma das dimensões menos abordadas na biografia psicológica de Sengoku diz respeito ao seu papel como principal nêmesis de Shiki, o Leão Dourado, e a constante necessidade de gerenciar o poder titânico da Era Antiga. Enquanto Monkey D. Garp perseguia ferozmente Gol D. Roger, e Kong supervisionava de longe, cabia a Sengoku arquitetar a contenção do maior aglomerado militar de piratas da época: a Grande Frota do Leão Dourado. Shiki não era apenas um pirata aventureiro; ele era um comandante bélico que compreendia estratégias táticas — algo que exigia a capacidade intelectual do "Buda" para ser combatido à altura.

O episódio da invasão de Shiki ao Quartel-General da Marinha, Marineford, pouquíssimos dias após a rendição de Gol D. Roger, ilustra perfeitamente o pragmatismo marcial de Sengoku. Shiki chegou em fúria, acreditando que a Marinha, sendo "escória", era indigna de capturar um homem da magnitude do Rei dos Piratas. Garp e Sengoku o enfrentaram não num duelo romântico de ideais, mas sim numa resposta implacável e conjunta das forças de segurança máximas. Juntos, eles não apenas domaram o orgulho descontrolado de Shiki, mas destruíram deliberadamente metade de Marineford no processo. A destruição colossal evidenciava o compromisso irrevogável de Sengoku em neutralizar uma anomalia, por maior que fosse o custo da estrutura física sob sua jurisdição. Contudo, essa vitória possuía um sabor agridoce para ele. Aprisionar Shiki no Nível 6 de Impel Down significou o encerramento do capítulo áureo de rivais respeitáveis. Dali por diante, a pirataria decairia numa Era dos Piratas fragmentada, infestada não de lendas carismáticas de visão grandiosa, mas de escórias brutais em busca desenfreada de um tesouro desconhecido.

Capítulo 7: O Triângulo do Poder – Os Shichibukai e a Maquinação da "Paz"

Sengoku foi o Almirante de Frota durante a fase de consolidação e o apogeu do sistema dos Ouka Shichibukai (Os Sete Lordes do Mar). Não há fardo burocrático e moral maior do que a instituição desse sistema tripartido, que consistia na Marinha, nos Yonkou e nos Shichibukai, para sustentar a frágil balança do mundo. Apoiar-se ativamente em vilões e megalomaníacos — desde um crocodilo mafioso que desejava usurpar Alabasta até um flamingo sádico que comandava as rotas do submundo — ia contra qualquer premissa ética básica do "código de justiça" naval. No entanto, para Sengoku, o pragmatismo suplantou a pureza.

A aprovação e sustentação deste sistema exigiam que Sengoku reprimisse não apenas a fúria das vítimas civis ignoradas, mas a insubordinação moral de seus próprios marinheiros que desprezavam a ideia de fazer concessões a piratas. A genialidade de Sengoku residia na sua capacidade estoica de engolir seu asco por homens como Doflamingo (o próprio assassino do seu "filho", Corazón), Boa Hancock e Gecko Moria, lidando com eles através de reuniões ríspidas, chantagens diplomáticas e intimidação indireta.

Em Dressrosa e Alabasta, quando o Governo Mundial precisou acobertar a interferência da família Nefertari ou a atrocidade do Rei Riku (manipulada por Doflamingo), Sengoku era frequentemente o rosto governamental responsável por aprovar a ocultação da verdade, redirecionando o crédito para a Marinha e silenciando esquadrões (como a frustração imposta ao Capitão Smoker após o incidente de Crocodile). Essas decisões não eram tomadas com malícia de vilão, mas com o peso sombrio de um utilitarista. A lógica macabra afirmava que se o cidadão comum soubesse que um de seus pilares de defesa os escravizou e massacrou impunemente, a crença global na ordem colapsaria, causando revoluções que afogariam nações em mares de sangue imprevisíveis. Sengoku protegeu a estabilidade mentindo incessantemente. O Buda de Ouro teve que ser o arquiteto supremo da farsa mundial.

Capítulo 8: A Sabedoria Maldita – O Pavor do Século Perdido e o Nome dos D.

Não se pode falar da inteligência monumental de Sengoku sem considerar seu imenso acesso a informações confidenciais do Governo Mundial, que inclui fragmentos proibidos da verdadeira história. A sua reação à citação de Barba Branca sobre a Vontade dos D. em Marineford, onde Barba Branca promete que alguém carregando séculos de história em suas costas virá para virar o mundo de cabeça para baixo, reflete o pavor oculto do Almirante de Frota. O rosto suado, arregalado e enrugado de Sengoku neste momento é o desespero de um intelectual governamental percebendo que a barragem de censura rachou em praça pública, transmitida para todo o globo.

Ao lado de Gorosei, Sengoku é uma das poucas figuras não-Tenryuubito que nutre um profundo e respeitoso temor sobre a Família D. Ele sabe que Trafalgar D. Water Law, Monkey D. Luffy e Marshall D. Teach não são apenas terroristas com superpoderes, mas portadores de uma fatalidade espiritual inerente que ameaça não apenas a infraestrutura da Marinha, mas os próprios "deuses" que governam o mundo a partir da Terra Sagrada.

Em diversas ocasiões, Sengoku demonstrou frustração ativa em tentar suprimir esses indivíduos não apenas com força, mas com apagamento existencial. Sua ordem para executar o linho inteiro de Roger, resultando na morte de inumeráveis grávidas e recém-nascidos, é um testamento claro de como a paranoia sobre esse segredo histórico envenenou irremediavelmente a "Justiça Reinante". Foi ali, ao comandar um abate de bebês no escuro, que Sengoku atravessou um abismo ético do qual não há retorno. A dor, a amargura e a frustração constantes que o permeavam nas reuniões de cúpula eram sintomas de sua consciência esmagada; ele, o detentor da sabedoria máxima da Marinha (O Buda), havia se tornado ciente demais. A ignorância teria sido uma bênção. Compreender o tabu, e lutar ativamente para mantê-lo pelo extermínio, fez dele o carcereiro de toda a verdade mundial.

Capítulo 9: A Transição do Comando – O Buda Opositor do Cão Vermelho

A indicação oficial de Sengoku para que Aokiji assumisse o título de Almirante de Frota é o maior manifesto ético proferido por ele em toda a sua carreira governamental. Tendo carregado a responsabilidade pesada, suja e sanguinária do cargo, Sengoku tentou desesperadamente barrar a ascensão de Sakazuki (Akainu). Ele reconhecia que enquanto ele próprio derramava sangue para tentar manter um frágil equilíbrio civilizatório, Akainu era fanático o suficiente para queimar a civilização a fim de exterminar o crime.

O confronto ideológico (que gerou a batalha monumental e devastadora em Punk Hazard) foi orquestrado indiretamente por essa intervenção do Almirante de Frota. A oposição dos Gorosei à nomeação de Aokiji demonstrou o declínio irrevogável da influência de Sengoku dentro do aparelho governamental. Seus superiores em Mary Geoise queriam um Executor implacável; eles estavam cansados da "moderação" administrativa de Sengoku. Quando Sakazuki tomou a liderança, o último vestígio da humanidade tática nas esferas de alto escalão ruiu. Akainu moveu o quartel general para o Novo Mundo, apostou na fúria incontrolável e no confronto constante, criando uma "Justiça Absoluta" sem as ressalvas da Justiça de Sengoku.

No entanto, há uma vitória agridoce e vingativa em Sengoku. Ele entregou o fardo colossal para as mãos fumegantes de Sakazuki. E no Pós-Timeskip, frequentemente observamos um Sakazuki sobrecarregado, esbravejando com os Gorosei pela perda de autoridade face ao evento de Doflamingo (algo que Sengoku jamais pôde fazer), irritando-se perante o escândalo crescente. Sengoku agora o assiste com o distanciamento irônico de quem diz silenciosamente: "Você pediu pelo fogo. Agora, não se queime ao carregar as chamas do governo." A relação de desdém que Sengoku nutre por Sakazuki, embora mantenham uma proximidade civil por protocolo militar, simboliza a recusa do Velho Buda em aceitar a selvageria em estado puro, marcando um profundo repúdio e distanciamento perante o rumo drástico que os "bons costumes" marinhos haviam tomado.

Capítulo 10: O Impacto Histórico, Folclórico e o Desfecho na Trama Final

Analisando sob o prisma das referências culturais e religiosas mundiais que permeiam a obra, a construção de Sengoku encontra raízes não apenas no folclore budista estrito, mas nas narrativas japonesas dos clãs feudais (daimyo) durante o conturbado Período Sengoku – uma época de guerra implacável em busca da unificação e paz absolutas. Não à toa ele detém o mesmo nome dessa era. O Almirante de Frota encarnou os horrores inafastáveis da manutenção política.

Enquanto heróis como Luffy rompem os mares em busca da libertação plena e o sol nascente (Dawn), Sengoku representa as sólidas e pesadas paredes do porão da sociedade – as estruturas que detêm a inundação anárquica e caótica da pirataria para a população comum, mas que requerem manutenção e subornos morais em um governo despótico manchado pelas Trevas. Ele não será o libertador de One Piece, tampouco será a principal calamidade na guerra final. Em vez disso, seu papel aproxima-se do guardião melancólico da transição.

Em um eventual conflito apocalíptico onde o Exército Revolucionário, a tripulação de Luffy e os últimos resquícios de integridade militar da SWORD enfrentarão o Trono Vazio de Imu, Sengoku não deverá agir como uma espada para os Gorosei. É provável que ele intervenha como uma força de mitigação e evacuação. A sua verdadeira redenção não será o extermínio desenfreado; será proteger os jovens, auxiliar nas margens a nova geração que se rebela e testemunhar, finalmente, o despontar da aurora que ele sempre acreditou estar fora do seu alcance devido ao pacto de sangue que assinou nas primeiras décadas de sua carreira.

A teoria fundamental sobre o fim de Sengoku em One Piece, portanto, é a de uma aposentadoria definitiva de seus fantasmas. Ele irá ver as mentiras arquitetadas e mantidas com suas mãos burocráticas se desmoronarem. O Século Perdido virá à luz; os genocídios justificados cairão sob o peso do julgamento ético supremo; e a divindade intocável que o Almirante de Frota representava colapsará no solo empapado de lama e vergonha. Quando essa barragem governamental estilhaçar sob a força dos D, a reação de Sengoku não será de pavor bélico, mas a aceitação de um suspiro monumental: um exaustivo descanso interior.

Sengoku, O Buda, carregou o pecado maior de viver demais, pensar intensamente e sofrer calado em sua cela dourada de Almirante de Frota. A ironia suprema e poética repousa em sua sobrevivência. Em contraste com a figura morta e reverenciada do grande Barba Branca ou de Roger, Sengoku deve viver até testemunhar que as correntes burocráticas que apertavam seus ossos nunca o impediram de rir novamente com uma cabra a pastar, longe da coroa suja de Mary Geoise. A "Justiça Reinante" não é eterna, mas as risadas ranzinzas de um Buda libertado ecoarão pela eternidade.

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